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Primeiros passos no profissional, circuito satélite no Sul




Ontem o amigo Ivo me fez voltar uns 15 anos no tempo ao comentar do circuito satélite no Rio Grande do Sul.

Estava no começo da carreira, éramos meninos com 18, 19 anos com muitos sonhos. Ainda não sabíamos qual era o caminho mais certo para chegar ao lugar onde todos os atletas querem chegar, o topo.

Eu tinha sido um belo juvenil, tive um ultimo ano maravilhoso, ganhei varias etapas do Cosat, fui numero 1 do mundo por sete meses mas depois de alguns anos ainda não conseguia deslanchar. Como todo jovem saído do juvenil comecei a jogar meus satélites.

Os circuitos satélites eram os menores torneios, você tinha que jogar 3 etapas e os 24 melhores se classificavam para o masters, só depois das quatro semanas você computava os pontos. Na época o maximo que você podia conquistar em um satélite eram 30 pontos.

Por um lado desgastava muito ter que jogar tantas semanas para obter seus primeiros pontos mas por outro lado você tinha uma convivência com os jogadores muito boa.

Os jogadores se dividiam em grupos de amigos, eu dizia que eram varias tribos, as dos profissionais, (sempre focados e treinando o dia inteiro) as dos largados ( tudo tava bom, se tinha quadra legal, se não tinha tudo bem também) a tribo dos malucos (esses eram os perigosos, entravam nas baladas todos os dias, viviam o torneio como uma colônia de ferias) e os nerds ( sempre tem eles, os chatos e Zé perguntinha).

Como tínhamos pouca experiência tentávamos nos acoplar ao melhor grupo possível, o grupo que andávamos era bem divertido, andava o Willian Kyriakos, Juan Etchecoin, Enrique Perez e outros grandes lutadores.


As vezes chegava a ser engraçado, lembro que nas primeiras semanas apareceu um Austríaco que jogava muito, Gilbert Schaller, depois de jogar bem uma etapa todos queriam treinar com ele e fazer o mesmo que ele fazia.

As vezes copiávamos mais que isso......
Um dia no almoço estava com meus inseparáveis amigos e adversários e vimos que ele estava lendo Sidney Sheldon, no dia seguinte saímos para a livraria atrás do bendito livro, não satisfeitos juntamos 5 malucos e cada um comprou 1, ao final dos 3 meses posso dizer que li quase todos os livros dele. Como tínhamos pouco dinheiro íamos trocando quando acabávamos, no final comprei 2 ou 3 e li uns 10. Lembro da cara do vendedor , ele deve ter pensado que molecada maluca, aparecem na minha livraria e compram todos os exemplares de um mesmo escritor. Saímos de lá felizes.

Os dias que seguiram vivíamos dentro da quadra e nos tempos livres discutindo os livros do Sidney. hehehe

Passei 3 meses jogando, foi a primeira vez que joguei tantos jogos e fiquei tanto tempo fora de casa jogando torneios. Foi uma grande experiência, os torneios eram feito na garra pela Confederação, tenho certeza que graças a esses torneios tanto eu como o Roberto Jabali e muitos outros pudemos começar nossa caminhada no profissional. Aproveitamos essa oportunidade de ouro.

Nesses 3 meses conheci o sul quase inteiro, passei por, Livramento, Uruguaiana,Caxias, Santa Maria, Santa Cruz do Sul, Novo Hamburgo, Pelotas e Porto Alegre.

Lembro que os argentinos eram os mais encardidos e o Gumy, Del Rio, Pastura, alem deles os que ganhavam a maioria dos torneios eram o Betão Jabali e João Zwetch.

Tive um aproveitamento super bom nos 3 satélites e sai da colocação 500 para 185 do mundo. Um salto que me deixava respirar e me permitia entrar em alguns torneios maiores.

Lembro de varias histórias, das que posso contar.... Hummm.........

Estávamos jogando em Caxias e não parava de chover, vários dias se passaram e decidiram levar uns 8 jogos para Novo Hamburgo de micro ônibus, essas viagens são meio difíceis, você viaja do lado do teu adversário, não sabe se troca uma idéia com ele, se mostra que está concentrado ou se trata normalmente No meio da descida da serra o motorista perdeu o freio.

Eu estava no segundo banco e via o motorista enfiar o pé no breque até o fim e nada, passamos quase 1 kilometro esperando a hora que o bichinho ia capotar, não sei como o cara conseguiu segurar no braço e nada aconteceu com agente.

Foi um sufoco, todos batíamos palma quando ele conseguiu parar.

Esperamos um pouco na estrada e vieram nos pegar em outro micro, quando imaginávamos que iam nos levar de volta deram a linda noticia que íamos continuar viagem.

As palavras do arbitro, sei que vocês tiveram bastante emoção, mas guardem um pouco para mostrar dentro da quadra.

O tenista tem que estar preparado para jogar em qualquer situação




1992 foto jogando o campeonato. Belos tempos

Escrito por Fernando Meligeni às 17h49 envie esta mensagem

Lembranças do meu último jogo no circuito

Ontem recebi um grande presente, na verdade não sei se é bem um presente. rs

O amigo Sergio Sampaio me mandou por mail 1 foto do meu último jogo no circuito. Falei que não sabia se era presente ou não porque esse ultimo jogo foi....... RIDÍCULO


Foi em Roland Garros 2003, depois de 10 anos seguidos jogando chave principal, esse ano tive que jogar o qualy, foi uma experiência difícil

A única vez que tinha jogado o qualy tinha sido em 93, onde passei e fui até as oitavas, os outros anos só tinha tido alegria, a semi de 99, outros anos inesquecíveis,mas vamos lá.

Sempre considerei o torneio de Paris meu preferido, onde todo mundo joga seu melhor tênis, todas as empresas estão lá, a imprensa com fome de noticia e o publico é incrível entende muito de tênis. Com isso já da para motivar qualquer pessoa.

Eu estava em um momento difícil na minha carreira, não sabia o que queria, se parar de jogar ou não, pensava todos os dias quando acordava se eu tinha que continuar me matando, treinando duro ou se queria aproveitar as outras cosias que a vida te dá.

Conversando com o Bebe (meu treinador) , ele me dizia que essa era uma semana chave, não tinha como não estar afim de jogo naquele lugar, se eu não jogasse com alegria íamos ter que bater um papo mais serio no final.

Foi o que aconteceu, joguei a primeira rodada contra um argentino já conhecido meu, Marcelo Charpentier (esse da foto abaixo), tínhamos jogado algumas vezes e seu jogo encaixava perfeito para meu momento, jogava de fundo,corria muito mas não me machucava com seus golpes.

Eu estive irreconhecível e perdi rapidinho por 6/3 6/1.

Meu dias nas quadras de tênis estavam contados. Lembro bem o momento em que voltando pro hotel com o Bebe, olhava para ele querendo dizer que era a hora de papar mas me faltava coragem.
Estava no momento mais difícil para um atleta, reconhecer que chegou a hora, preservar tudo que tinha feito e conquistado e não aceitar ficar no circuito apenas por não saber o que fazer depois de parar ou tentar se enganar achando que ainda dava.

Sempre tive pessoas incríveis do meu lado que me ajudaram a direcionar minha carreira. Sem interesses e sim amor a minha pessoa.

Eu realmente estava jogando abaixo do meu nível, não queria virar saco de pancada.

Quando chegamos no hotel meu treinador me chamou para a já esperada conversa, fomos direto ao assunto. Ele com muita coragem e amizade me olhou e disse, acho que chegou tua hora. Está difícil te motivar, dentro de você, alguma coisa te pede para parar, não encare isso com tristeza, você conquistou muita coisa, fez grande jogos, ganhou de muita gente top 10, tem que se valorizar, mas antes de encerrar tua carreira joga mais um torneio. Não acabe sua linda caminhada com um jogo tão ridículo. Volta para casa, descansa um pouco e decide.

Ele me deu duas opções, ou jogava o Aberto do Brasil em setembro na costa do Sauípe ou o Pan em agosto.

Decidi pelo pan, queria encerrar jogando um torneio com a chance de dar para o país uma medalha pan-americana. País que me abriu os braços e sempre me tratou com tanto carinho.


O resto vocês já sabem.


* Esqueci um ponto importante e agradeço ao Ceara pela lembrança. Quando voltei para o Brasil para pensar o que ia fazer da minha vida fui direto para angra conversar com meu pai e mãe, lá no barco era o lugar onde eu mais relaxava e tinha meus melhores pensamentos. Lembro que depois de uma boa velejada tinha a decisão na cabeça. Familia é tudo, a minha é muito especial. Preservem as familias, eles são nossa base.

Escrito por Fernando Meligeni às 10h28 envie esta mensagem

48 anos nas costas ganhando, esse é o John McEnroe




Que demais... acabei de ler no site da revista tênis que mesmo com 48 anos o McEnroe ganhou do Philippoussis

Incrível que com essa idade ele consiga jogar nesse nível

Pode parecer até normal mas não é, o Mark está tentando voltar as quadras depois de varias lesões, ele tem um dos melhores saques do circuito e todos os jogadores concordam, jogar contra ele é um “saco”

Voltando ao McEnroe...

Quando comecei a jogar já tinha ele como meu grande ídolo, adorava suas discussões com os juizes, suas caras e bocas, suas estratégias para enervar o adversário,alem do seu incrível talento e precisão nos golpes, o tempo vai passando e ele continuoa fazendo coisas incríveis.

Parece que o tempo não passa para ele, eu com meus 36 anos já sinto a diferença cada vez que vou treinar com um jogador na ativa, ele com essa idade ganha torneios de duplas, vence jogadores de primeiro nível do circuito e para deixar a galera mais maluca ainda é o melhor comentarista de tênis que já vi.

Tive a opotunidade de treinar com ele uma vez em um grand slam, ele já tinha parado de jogar e eu estava no meu melhor momento, quando ele chegou perto e disse...

Hey Fernando, do you wanna hit some? quase desmaiei. Quando começamos a jogar então foi um prazer inesquecivel. Baemos por pouco tempo mas o suficiente para idolatrar mais ainda ele.

Em Portugal quando fui jogar este ano me contaram uma história muito legal. Para quem não sabe o grande mc enroe é o cara mais importante no circuito, o que mais leva gente e mais tumultua jogos. rs

Há alguns anos atrás no Algarve (Portugal) jogando contra o Mats Wilander o resultado estava 6/0 5/0 para o Mac. Depois de tantos anos jogando juntos no circuito o que os jogadores menos querem é deixar o amigo em maus lençóis, mas pelo que todos percebiam, o homem não estava com nenhuma vontade de deixar o adversário fazer um game sequer. Aquela situação constrangedora começou a acontecer, os jogadores começaram a se olhar quando o figura Noah e o Sanches decidiram invadir a quadra, correram entre os torcedores, pularam a grade da quadra e rapidamente se posicionaram do lado do Wilander, quando o Mc Enroe se virou tinham 3 adversários, depois de boas gargalhadas dos presentes foram embora.

O mais normal nessas horas é o cara dar uma risada, uma boa tirada de pé, continuar o jogo e sem querer,querendo, acaba perdendo um game.

Que nada, o “monstro” ficou furioso, esbravejou, mandou os 2 para aquele lugar ( não posso dizer pra onde) e continuou jogando. Para sua maior irritação não conseguiu fechar sem o que o Mats fizesse um game. Na saída da quadra, já na sala de jogadores continuava de bico porque tinham desconcentrado ele. Esse é um grande exemplo de quem não quer perder nem um game nunca. Eu acho um pouco “over” mas tudo bem

Se tratando dele, vale tudo.

Eu tive uma única oportunidade de vê-lo jogar, foi numa Copa Davis em Buenos Aires na época que treinava lá. O time americano era ele e o Agassi.

Que time....


Pra relaxar um video desse maluco...rs

Escrito por Fernando Meligeni às 21h11 envie esta mensagem

Barba, Bigode e Cabelo do Nalbandian

Que semana David

O que aconteceu neste fim de semana acontece muito pouco no circuito de tênis.

Todos sabemos o talento do Nalbaldian, sempre disse que para mim ele tem jogo para ser numero 1 do mundo, falta apenas o comprometimento para isso.

Este ano não estava sendo nada maravilhoso para ele, não tinha conquistado nenhum título, o ranking despencando um pouco e muitos críticos de plantão recriminando seu amor pelos carros.

As pessoas esqueceram que o esporte se chama tênis e cada segunda feira o tenista tem mais uma chance de fazer historia. Ele mais uma vez fez, depois de conquistar o Master alguns anos atrás( coisa que quase ninguém esperava), fez mais uma das dele, ganhou em uma mesma semana do Djokovic, Nadal e Federer em um Master Series, o que dizer.................

Sempre tive uma relação muito legal com ele, me impressionava sua tranqüilidade e alegria jogando o circuito.

A 2 anos atrás fui convidado pra jogar um exibição em Punta del Este contra ele. Eu já tinha parado de jogar a mais de 2 anos e ele tinha acabado de ganhar o Master. Estava bem preocupado com o jogo, não pelo resultado em si, estava preocupado com o que ele ia fazer comigo na quadra.

No vestiário antes do jogo ficamos batendo papo por mais de 1 hora, entre uma risada e outra ele me perguntou como era a vida depois do tênis, se eu estava curtindo e se me arrependia de ter parado. Tais perguntas tinham sentido quando ele começou a me explicar o porque de ser tão tranqüilo e as vezes até treinar menos e jogar menos que os outros tops.

A grande frase veio assim, Fer, amo jogar tênis, faço porque gosto mesmo, mas se precisar abandonar minha vida, minha família,amigos e as coisas que amo fazer prefiro não ser numero 1 do mundo. Adoro rally, tenho uma equipe na Argentina e quero aproveitar isso também.

Quando falava dos carros seus olhos brilhavam, ele estava lá acompanhado de um corredor amigo dele e passamos mais tempo conversando sobre suas experiências dentro do carro do que dentro da quadra ou da épica vitória em Londres.

Mesmo com todo esse discurso impressiona seu talento e o que ele faz com a bola, tem uma esquerda quase perfeita, devolve saque como poucos e se mexe pouco na quadra( não que ele não queira, é que ele antecipa a jogada como poucos). Jogar com ele era difícil, você sabia que não ia ganhar nenhum ponto de graça no teu saque e que ele não a errar nenhuma esquerda. Um pesadelo.

Por um lado entendo o que ele diz porque não é fácil abdicar de tudo por um sonho,mais ainda quando o atleta conquistou tantas coisas, mas por outro fico me perguntando se ele chegaria bem perto do numero 1 do mundo se tivesse a fome do Federer, sei que todos vão dizer que não tem comparação, mas eu tenho minhas duvidas. Já vi ele fazer coisas incríveis.

Tênis não tem muita lógica as vezes, agora, algumas certezas sim, cada vez que o Nalbaldian joga..... vale a pena sentar e assistir.

Vocês gostam? Opinem

Escrito por Fernando Meligeni às 14h03 envie esta mensagem

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